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O que o ESMO 2026 trouxe para os tumores geniturinários

O Congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Clínica (ESMO) de 2026 aconteceu em Madri, de 23 a 27 de outubro. Dois estudos de tumores geniturinários chegaram ao Simpósio Presidencial, o espaço reservado aos resultados de maior impacto: o VOLGA, em câncer de bexiga, e o DASL-HiCaP, em câncer de próstata.

Três mensagens marcaram o congresso. No MIBC, ADC + inibidor de checkpoint se consolidou como estratégia perioperatória, enquanto a adição de anti-PD-1 à cis/gem neoadjuvante falhou em dois estudos de fase 3. Na próstata localizada de alto risco, a intensificação com ARPI melhorou desfechos de MFS e EFS, com SG ainda imatura. No carcinoma renal de células claras, tripletos baseados em lenvatinibe + pembrolizumabe não superaram o dupleto.

A seguir, resumimos os principais estudos de cada área.

Câncer de bexiga: enfortumabe vedotina se consolida no perioperatório

VOLGA: durvalumabe + enfortumabe vedotina para quem não pode receber cisplatina

O VOLGA foi o grande destaque geniturinário do congresso. O estudo de fase 3 incluiu 695 pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo (MIBC) inelegíveis à cisplatina ou que a recusaram. Comparou cistectomia direta com três ciclos de durvalumabe + enfortumabe vedotina (EV) antes da cirurgia e durvalumabe depois dela.

  • Sobrevida livre de eventos (EFS): redução de 49% no risco (HR 0,51; IC95% 0,38–0,67; p<0,0001); EFS em 24 meses de 64% vs 45%
  • Sobrevida global (SG): HR 0,58 (IC95% 0,40–0,83; p=0,0027); 78% vs 69% em 24 meses
  • Resposta patológica completa: 45% vs 10%
  • Um terceiro braço, com tremelimumabe, melhorou a EFS (HR 0,61), mas não a SG nesta análise interina, com mais toxicidade

O estudo foi publicado simultaneamente no New England Journal of Medicine e posiciona durvalumabe + EV como potencial novo padrão para esse grupo.

KEYNOTE-866 e ENERGIZE: imunoterapia + cisplatina não funcionou

Dois estudos de fase 3 testaram a adição de imunoterapia à quimioterapia neoadjuvante com gencitabina e cisplatina, e ambos foram negativos.

Estudo

Pacientes

Estratégia

EFS (HR)

Resposta patológica completa

KEYNOTE-866

907

Pembrolizumabe perioperatório + cis/gem

0,88 (não significativo)

44,4% vs 35,8%

ENERGIZE

653

Nivolumabe perioperatório + cis/gem

0,94 (não significativo)

39,1% vs 29,6%

A conclusão dos pesquisadores foi direta: a combinação não se sustenta, e EV + pembrolizumabe perioperatório já é padrão em MIBC, independentemente da elegibilidade à cisplatina.

DNA tumoral circulante e o peso de cada fármaco

No estudo KEYNOTE-B15, o DNA tumoral circulante (ctDNA) desapareceu antes da cirurgia em 82,1% dos pacientes com EV + pembrolizumabe vs 66,7% com quimioterapia. Com ctDNA persistentemente positivo, a EFS em 24 meses ficou em torno de 33–35%, contra 81,1% após clearance no braço EV + pembrolizumabe, o que reforça o ctDNA como marcador prognóstico. Ele ainda não serve, porém, para dispensar cirurgia ou tratamento.

Uma análise do KEYNOTE-905 mostrou que o enfortumabe vedotina é peça-chave da combinação: a resposta patológica completa foi de 58,8% com EV + pembrolizumabe, 25,3% com pembrolizumabe isolado e 10,3% com cirurgia isolada.

Doença metastática

Na coorte 7 do estudo TROPHY-U-01, o tripleto sacituzumabe govitecana + EV + zimberelimabe obteve 81% de resposta objetiva em primeira linha. É um dado inicial, de fase 1b, que precisa de confirmação.

Câncer de próstata: mais bloqueio hormonal na doença localizada de alto risco

DASL-HiCaP: darolutamida com radioterapia

Apresentado no Simpósio Presidencial, o DASL-HiCaP incluiu 1.106 homens com câncer de próstata localizado de muito alto risco ou com recidiva bioquímica após prostatectomia. Todos receberam bloqueio hormonal (ADT) e radioterapia; metade recebeu também darolutamida por 96 semanas.

  • MFS por imagem convencional: risco de metástase ou morte 58% menor (HR 0,42; IC95% 0,27–0,66; p=0,0001)
  • Sobrevida livre de metástase em 4 anos: 95% vs 88%
  • Sobrevida global ainda sem diferença (HR 0,88), com dados imaturos

PROTEUS: apalutamida antes e depois da cirurgia

O subestudo do PROTEUS comparou diretamente a prostatectomia isolada com a cirurgia associada a seis meses de apalutamida + ADT antes e seis meses depois. Em 408 pacientes, o risco de recidiva ou morte caiu 62% (HR 0,38; IC95% 0,26–0,55; p<0,0001), com MFS também favorável (HR 0,49; IC95% 0,26–0,90). A sobrevida livre de eventos mediana foi de 19,1 meses com cirurgia isolada e ainda não foi atingida no grupo com apalutamida. O estudo foi aberto e com randomização 1:3, então os resultados são descritivos.

Doença metastática sensível à castração

  • CAPItello-281: em tumores com perda de PTEN, capivasertibe + abiraterona teve sobrevida global mediana de 57,4 vs 46,5 meses (HR 0,82; IC95% 0,68–0,99; p nominal 0,044). A análise foi descritiva e não atingiu o limiar formal de significância.
  • PEACE-1: com quase 8 anos de seguimento, somar abiraterona a ADT + docetaxel elevou a sobrevida global mediana de 4,4 para 6,2 anos, consolidando o tratamento triplo.

Câncer de rim: o padrão atual se mantém

LITESPARK-012: três fármacos não superaram dois

O LITESPARK-012 incluiu 1.688 pacientes com carcinoma renal de células claras avançado sem tratamento prévio. Testou a adição de belzutifano ou de quavonlimabe (anti-CTLA-4) a lenvatinibe + pembrolizumabe. Nenhuma das combinações melhorou a sobrevida livre de progressão ou a sobrevida global (braço com belzutifano: SLP mediana 20,8 vs 23,7 meses, HR 1,08; SG HR 1,04), e ambas causaram mais interrupções por efeitos colaterais. Lenvatinibe + pembrolizumabe segue como padrão de primeira linha.

LITESPARK-011: opção após imunoterapia

Após falha da imunoterapia, belzutifano + lenvatinibe superou o cabozantinibe em sobrevida livre de progressão (14,8 vs 10,8 meses; HR 0,74) e em taxa de resposta (53,1% vs 40,2%). A diferença em sobrevida global (33,7 vs 28,6 meses) não atingiu significância estatística.

O que muda na prática

  • Bexiga músculo-invasiva: conjugados anticorpo-fármaco com imunoterapia, como EV + pembrolizumabe ou durvalumabe, passam a ser o caminho perioperatório; somar imunoterapia à cisplatina não é recomendado.
  • Próstata localizada de alto risco: há sinal consistente a favor de associar um inibidor de receptor androgênico à radioterapia ou à cirurgia, mas o impacto em sobrevida global ainda é aguardado.
  • Rim avançado: lenvatinibe + pembrolizumabe continua sendo referência em primeira linha.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde. Os dados vêm de apresentações em congresso e análises interinas, e podem mudar na publicação final.

 


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Dr. Alexandre Sato

Médico Urologista em São Paulo - SP

Dr. Alexandre Sato é médico urologista, com formação na Santa Casa de São Paulo e Fellowships em Cálculos Renais e Oncologia Urológica, incluindo Cirurgia Robótica na Duke University. Certificado pela Intuitive para Cirurgia Robótica e Proctor nessa área, ele atua em sua clínica privada e nos melhores hospitais de São Paulo - SP. Membro de sociedades urológicas e revisor do Brazilian Journal of Urology, Dr. Alexandre Sato é comprometido com a excelência e constante atualização na área.


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