HoLEP x RTU de próstata: por que o laser mudou o padrão
Por Dr. Alexandre Sato — Urologista | CRM-SP 146.210 · RQE 61330
Conteúdo educativo, não substitui a consulta médica.
Quando a próstata aumentada (hiperplasia benigna da próstata ) passa a atrapalhar o dia a dia — jato fraco, levantar várias vezes à noite, sensação de esvaziamento incompleto — e a medicação já não resolve, entra em cena a cirurgia. Por décadas, a RTU de próstata (ressecção transuretral, ou TURP) foi o padrão-ouro. Nos últimos anos, porém, uma técnica a laser, o HoLEP (enucleação prostática com laser de Holmium), vem mudando esse cenário. Este artigo explica, em linguagem clara, o que muda entre as duas e por que o HoLEP é hoje considerado um novo padrão — especialmente para próstatas grandes.
As duas cirurgias, em palavras simples
Na RTU (TURP), o cirurgião entra pela uretra e "raspa" o tecido prostático que obstrui, em pequenos fragmentos, usando uma alça elétrica. É uma técnica consagrada, eficaz e amplamente disponível.
No HoLEP, também por via uretral (sem cortes na pele), o laser é usado para "descascar" todo o adenoma — a parte da próstata que cresceu e obstrui — separando-o da cápsula, como quem retira a polpa de uma laranja da casca. Esse tecido é então empurrado para a bexiga e triturado (morcelação) para ser retirado. A diferença de conceito é importante: a RTU remove por partes, enquanto o HoLEP remove o adenoma por inteiro.
Por que o HoLEP mudou o padrão
Três motivos explicam por que o HoLEP se tornou referência:
1. Trata próstatas de qualquer tamanho. Essa é a grande virada. A RTU tem limitações em próstatas muito volumosas, e nesses casos o caminho clássico era a cirurgia aberta (com incisão e recuperação mais longa). O HoLEP não tem esse limite de tamanho — trata próstatas pequenas, médias e grandes pela mesma via minimamente invasiva, tornando a cirurgia aberta quase desnecessária.
2. Sangra muito menos. Como o laser sela os vasos enquanto trabalha, o HoLEP causa bem menos sangramento e uma taxa de transfusão muito menor que a RTU. Isso o torna uma opção mais segura inclusive para pacientes que usam anticoagulantes.
3. Sonda e internação mais curtas, com resultado duradouro. O HoLEP costuma permitir retirar a sonda mais cedo e ter alta mais rápida. E, por remover todo o adenoma, oferece um resultado muito durável, com baixa necessidade de nova cirurgia no futuro — a próstata "não volta a crescer" naquela porção retirada.
Comparação lado a lado
| Aspecto | HoLEP (laser) | RTU / TURP |
|---|---|---|
| Como remove o tecido | Enuclea (remove todo o adenoma) | Raspa em fragmentos |
| Tamanho da próstata | Qualquer tamanho | Melhor em próstatas pequenas/médias |
| Sangramento / transfusão | Bem menor | Maior |
| Uso em anticoagulados | Mais favorável | Mais limitado |
| Tempo de sonda | Mais curto | Mais longo |
| Tempo de internação | Mais curto | Mais longo |
| Melhora dos sintomas (IPSS) e do jato (Qmax) | Excelente (igual ou superior) | Excelente |
| Durabilidade / nova cirurgia | Alta durabilidade | Boa, um pouco menor em próstatas grandes |
| "Síndrome pós-RTU" (queda de sódio) | Rara | Possível |
| Tempo de cirurgia | Um pouco maior | Menor |
| Ardência urinária transitória | Um pouco mais comum no início | Menos comum |
| Curva de aprendizado | Mais longa (exige treino) | Mais curta |
Dados baseados em metanálises que comparam as duas técnicas; os resultados variam conforme o caso e a experiência do serviço.
O que o HoLEP não muda
É importante o equilíbrio. A RTU continua sendo uma excelente cirurgia, bem estabelecida e adequada para muitos pacientes, sobretudo com próstatas pequenas a médias. O HoLEP tem curva de aprendizado mais longa e exige treinamento específico e equipamento adequado — por isso a experiência da equipe é decisiva. E, como toda cirurgia de próstata benigna, o HoLEP costuma levar à ejaculação retrógrada (o sêmen vai para a bexiga em vez de sair pela uretra), um efeito comum que não afeta o prazer nem a saúde, mas que deve ser conversado antes. A função erétil, em geral, é preservada.
Afinal, o HoLEP é melhor?
Para a maioria dos desfechos — sangramento, sonda, internação, durabilidade e, principalmente, a capacidade de tratar qualquer tamanho de próstata —, o HoLEP leva vantagem, e por isso é hoje considerado um novo padrão, sobretudo para próstatas grandes. Mas "melhor" depende do caso: tamanho da próstata, seu estado de saúde, uso de anticoagulantes, suas prioridades e a disponibilidade de uma equipe experiente. A decisão certa é individualizada — e um bom urologista vai explicar qual técnica faz mais sentido para você.
Perguntas frequentes
O HoLEP serve para próstata muito grande? Sim — essa é a sua grande vantagem. Ao contrário da RTU, o HoLEP trata próstatas de qualquer tamanho pela via minimamente invasiva, dispensando a cirurgia aberta na maioria dos casos.
O HoLEP sangra menos que a RTU? Sim. O laser sela os vasos durante o procedimento, o que reduz muito o sangramento e a necessidade de transfusão — sendo mais seguro, inclusive, para quem usa anticoagulante.
Vou ficar impotente ou incontinente? A função erétil costuma ser preservada. Pode haver incontinência transitória e ardência ao urinar nas primeiras semanas, que melhoram. O efeito mais comum é a ejaculação retrógrada.
A RTU ficou ultrapassada? Não. A RTU continua sendo uma ótima opção, especialmente para próstatas pequenas a médias. O HoLEP amplia as possibilidades, sobretudo para próstatas grandes.
Preciso de cirurgia aberta se minha próstata é muito grande? Quase nunca mais. O HoLEP substitui, na maioria dos casos, a antiga cirurgia aberta para próstatas volumosas.
Referências
- Comparison of HoLEP and TURP in BPH: a systematic review and meta-analysis. 2023.
- EAU. Guidelines on Management of Non-neurogenic Male LUTS / BPH, edição vigente (2026).
- AUA. Management of Benign Prostatic Hyperplasia (BPH) Guideline.
- Estudos de longo prazo de durabilidade e reoperação após HoLEP vs TURP.
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Orientações sobre tratamento da hiperplasia prostática benigna.
As informações refletem a literatura e as diretrizes vigentes; os resultados variam conforme o caso e a experiência do serviço.
Sobre o Dr. Alexandre Sato
O Dr. Alexandre Sato é médico urologista em São Paulo, dedicado à urologia oncológica, à cirurgia robótica da próstata e ao tratamento cirúrgico da próstata aumentada (hiperplasia prostática benigna). Fez graduação e residência em Urologia na Santa Casa de São Paulo e aprofundou sua formação em dois fellowships na Duke University (EUA) — referência mundial em câncer urológico — em urologia oncológica e cirurgia robótica, com treinamento adicional em cálculo renal na Faculdade de Medicina do ABC. É cirurgião robótico certificado e membro de sociedades de referência da especialidade.
No tratamento da próstata aumentada, orienta o paciente sobre as opções disponíveis — de medicações às técnicas minimamente invasivas e a laser — sempre com indicação individualizada. Atende em consultório na Vila Clementino e opera nos principais hospitais de São Paulo.
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