Como é o pré-operatório da RTU de bexiga: exames, jejum e medicações (Guia 2026)
Introdução
A RTU de bexiga — sigla para Ressecção Transuretral de Bexiga, também chamada de RTUB ou, na literatura internacional, TURBT (Transurethral Resection of Bladder Tumor) — é a cirurgia endoscópica realizada para retirar tumores da bexiga diagnosticados em exames de imagem ou cistoscopia. Ela é, ao mesmo tempo, diagnóstica (confirma o tipo e o estágio do tumor) e terapêutica (remove a lesão).
Embora seja considerada um procedimento de baixa a moderada complexidade, o sucesso da cirurgia e a ausência de complicações dependem diretamente de um pré-operatório bem conduzido. Este artigo responde, de forma completa, às dúvidas mais frequentes dos pacientes que receberam a indicação de RTU de bexiga — seguindo recomendações das diretrizes da European Association of Urology (EAU 2024), American Urological Association (AUA/SUO 2023) e Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).
O que é a RTU de bexiga e quando ela é indicada ?
A RTU de bexiga é realizada por via endoscópica transuretral — ou seja, o cirurgião introduz o ressectoscópio através da uretra até a bexiga, sem nenhum corte externo. Uma alça elétrica (monopolar ou bipolar) ou o laser retira o tumor em fragmentos, que são enviados para análise anatomopatológica.
As indicações mais comuns são:
- Tumor vesical visualizado em ultrassom, tomografia, ressonância ou cistoscopia
- Hematúria com suspeita de neoplasia
- Re-RTU (second-look) em tumores de alto risco diagnosticados previamente
- Controle de recidiva em pacientes já tratados por câncer de bexiga não músculo-invasivo (NMIBC)
A qualidade da ressecção é decisiva para o prognóstico: uma ressecção incompleta ou sem amostra de músculo detrusor compromete o estadiamento e pode mascarar tumores músculo-invasivos.
Etapa 1 — Consulta pré-operatória com o urologista
A preparação começa com uma consulta detalhada na qual o urologista revisa:
- História clínica completa (comorbidades, cirurgias prévias, alergias)
- Medicamentos em uso, especialmente anticoagulantes, antiagregantes e anti-hipertensivos
- Exames de imagem prévios (ultrassom, tomografia, ressonância com VI-RADS)
- Resultado de cistoscopia diagnóstica, quando disponível
- Citologia urinária, quando disponível
Nesta consulta são discutidos os objetivos da cirurgia, riscos, alternativas, taxa de recidiva e necessidade de tratamentos complementares (BCG intravesical, quimioterapia intravesical precoce com mitomicina ou gencitabina). É também quando se assina o termo de consentimento informado.
Etapa 2 — Exames pré-operatórios obrigatórios
Os exames solicitados variam conforme idade, comorbidades e tempo estimado da cirurgia, mas em geral incluem:
Exames laboratoriais
- Hemograma completo — avalia anemia e risco infeccioso
- Coagulograma (TP/INR e TTPa) — fundamental para cirurgia com sangramento potencial
- Ureia e creatinina — avaliação da função renal
- Glicemia de jejum e hemoglobina glicada (em diabéticos)
- Sódio e potássio — importantes quando se utiliza irrigação com glicina (RTU monopolar)
- Tipagem sanguínea
- Urocultura com antibiograma — obrigatória; se positiva, deve-se tratar a infecção antes da cirurgia
Exames cardiológicos
- Eletrocardiograma (ECG) para todos os pacientes acima de 40 anos ou com fatores de risco
- Ecocardiograma, teste ergométrico ou cintilografia miocárdica em pacientes com cardiopatia conhecida
- Avaliação do risco cirúrgico pelo cardiologista — geralmente usando os escores ACC/AHA, Lee (RCRI) ou Goldman
Exames pulmonares
- Radiografia de tórax em pacientes acima de 60 anos, tabagistas ou com doença pulmonar
- Espirometria em pacientes com DPOC ou asma grave
Exames de imagem direcionados
- Tomografia de abdome e pelve com contraste (uro-TC) ou ressonância multiparamétrica (RM VI-RADS) — estadiamento local e das vias urinárias altas
- Cistoscopia diagnóstica prévia, quando ainda não realizada
Etapa 3 — Avaliação anestésica (pré-anestésica)
Todo paciente deve passar por consulta com o anestesiologista, idealmente de 7 a 30 dias antes da cirurgia. Nesta consulta definem-se:
- Tipo de anestesia: raquianestesia (mais frequente na RTU) ou anestesia geral
- Classificação ASA (I a V) — define o risco
- Via aérea e necessidade de intubação
- Manejo de dor pós-operatória
- Orientações sobre jejum e medicações
Pacientes com marca-passo, desfibrilador implantável (CDI), próteses cardíacas, stents coronarianos recentes, doença pulmonar grave, obesidade mórbida ou apneia do sono exigem avaliação ainda mais detalhada — e em alguns casos, internação na véspera.
Etapa 4 — Jejum pré-operatório: o que as diretrizes modernas recomendam
O jejum excessivo é uma das causas mais comuns de mal-estar pós-operatório e está em desuso nos protocolos modernos. As recomendações atuais da Sociedade Americana de Anestesiologia (ASA) e dos protocolos ERAS (Enhanced Recovery After Surgery) são:
- Alimentos sólidos e leite integral: jejum de 8 horas
- Refeições leves (pão, torrada, bolacha): 6 horas
- Leite materno: 4 horas (pediatria)
- Líquidos claros (água, chá claro sem açúcar, água de coco sem polpa, suco coado, isotônicos claros): 2 horas
- Bebida carboidratada pré-operatória (maltodextrina): pode ser liberada até 2 horas antes, exceto em diabéticos descompensados
⚠️ Nada de café com leite, sopa, gelatina colorida ou balas nas 6 horas anteriores.
Etapa 5 — Manejo de medicações antes da RTU de bexiga
Esta é, sem dúvida, a etapa que mais gera dúvidas e, quando mal conduzida, aumenta o risco de sangramento ou de eventos trombóticos.
Anti-hipertensivos
- Betabloqueadores (atenolol, metoprolol, carvedilol, bisoprolol): manter no dia da cirurgia, com pequeno gole d'água
- Bloqueadores de canal de cálcio (anlodipino): manter
- Diuréticos (hidroclorotiazida, furosemida): geralmente suspensos na manhã da cirurgia para evitar hipotensão
- IECA e BRA (enalapril, losartana, valsartana): em muitos serviços são suspensos 12 a 24h antes, por risco de hipotensão durante a indução anestésica
Diabetes
- Metformina: suspensa 24 a 48h antes (risco de acidose láctica, sobretudo se houver contraste endovenoso)
- Sulfonilureias (glibenclamida, glimepirida): suspensas no dia
- Inibidores de SGLT2 (dapaglifozina, empaglifozina): suspensos 3 dias antes (risco de cetoacidose euglicêmica — recomendação FDA)
- Insulina basal: dose reduzida (geralmente metade) na manhã da cirurgia
- Insulina rápida: suspensa no jejum
Anticoagulantes e antiagregantes — o ponto mais crítico
A RTU de bexiga é classificada como cirurgia de risco hemorrágico alto. O manejo deve ser individualizado e discutido com cardiologista/hematologista:
- AAS (ácido acetilsalicílico) em dose cardioprotetora (75–100 mg): em pacientes de alto risco cardiovascular, pode-se manter; em baixo risco, suspender 7 dias antes
- Clopidogrel (Plavix) e ticagrelor: suspender 5 a 7 dias antes
- Varfarina (Marevan): suspender 5 dias antes, com controle de INR < 1,5 no dia da cirurgia; em pacientes de alto risco trombótico, fazer ponte com heparina de baixo peso molecular (enoxaparina)
- Rivaroxabana (Xarelto): suspender 24 a 48h antes, conforme função renal
- Apixabana (Eliquis): suspender 48h antes
- Dabigatrana (Pradaxa): suspender 48 a 96h antes, dependendo do clearance
- Edoxabana: suspender 24 a 48h antes
Nunca suspenda anticoagulante por conta própria. A decisão deve ser sempre compartilhada entre urologista, cardiologista e anestesista.
Medicações fitoterápicas e suplementos
Devem ser suspensos 7 a 14 dias antes, pois aumentam sangramento:
- Ginkgo biloba
- Alho em cápsulas
- Ginseng
- Vitamina E em altas doses
- Óleo de peixe (ômega-3) em doses altas
- Gengibre em cápsulas
Etapa 6 — Profilaxia antibiótica
A profilaxia antibiótica na RTU de bexiga segue as diretrizes da AUA Best Practice Statement e da EAU:
- Em pacientes sem risco aumentado e urocultura negativa: dose única de fluoroquinolona ou cefalosporina de 2ª geração 30–60 minutos antes da incisão
- Em pacientes de risco (imunossupressão, diabetes descompensado, sondagem crônica, litíase): antibioticoterapia estendida (3 a 7 dias) ajustada à urocultura
- Urocultura positiva: adiar a cirurgia e tratar a infecção antes, se possível
Etapa 7 — Tricotomia, banho e preparo no dia da cirurgia
- Banho com clorexidina degermante na noite anterior e na manhã da cirurgia
- Tricotomia (raspagem de pelos), quando necessária, deve ser feita no centro cirúrgico, com tricotomizador elétrico — nunca com lâmina em casa (aumenta risco de infecção)
- Remover esmalte, maquiagem, lentes de contato, próteses dentárias removíveis e joias
- Trazer os exames, laudos e lista de medicações ao hospital
Etapa 8 — Internação e check-in hospitalar
Em geral, a internação ocorre na manhã da cirurgia, cerca de 2 a 3 horas antes do horário marcado, para:
- Conferência de documentos, exames e consentimento
- Instalação de acesso venoso
- Revisão pelo anestesiologista
- Identificação e checagem do lado operatório (quando aplicável)
- Profilaxia antibiótica
A internação costuma ser de 24 horas, podendo ser ambulatorial (day hospital) em casos selecionados e estendida para 48–72h em tumores maiores ou com sangramento significativo.
Etapa 9 — Preparo emocional e expectativas
Um ponto frequentemente negligenciado. O paciente que compreende o procedimento, os riscos e os próximos passos apresenta menos ansiedade pré-operatória, menos dor pós-operatória e melhor adesão ao seguimento. Recomenda-se:
- Esclarecer todas as dúvidas na consulta (não deixe para o dia da cirurgia)
- Comparecer acompanhado
- Discutir com o urologista o plano terapêutico pós-RTU (instilação intravesical precoce, BCG, quimioterapia intravesical, re-RTU)
- Organizar licença médica de 7 a 14 dias para retorno gradual ao trabalho
Sinais de alerta que devem adiar a cirurgia
A RTU deve ser postergada se o paciente apresentar:
- Infecção urinária ativa (urocultura positiva não tratada)
- Febre nas 48h anteriores
- Infecção respiratória aguda
- Descompensação cardíaca, diabética ou respiratória
- INR acima do alvo em pacientes anticoagulados
- Anemia grave não compensada
Perguntas Frequentes :
- Quantas horas de jejum são necessárias antes da RTU de bexiga? Oito horas para alimentos sólidos e duas horas para líquidos claros (água, chá sem açúcar, isotônico claro), conforme diretrizes ASA e protocolos ERAS.
- Posso tomar meus remédios de pressão no dia da RTU? Sim, a maioria deles — como betabloqueadores e anlodipino — deve ser mantida com um pequeno gole d'água. Diuréticos, IECA e BRA geralmente são suspensos. Confirme sempre com seu urologista e anestesista.
- Quantos dias antes devo parar o AAS (aspirina) e o clopidogrel? Clopidogrel e ticagrelor são suspensos 5 a 7 dias antes. O AAS pode ser mantido em pacientes de alto risco cardiovascular ou suspenso 7 dias antes em pacientes de baixo risco — decisão sempre individualizada.
- A RTU de bexiga exige internação? Sim. Na maioria dos casos a internação é de 24 horas, com alta no dia seguinte. Casos selecionados podem ser ambulatoriais (day hospital).
- Preciso fazer preparo intestinal antes da RTU de bexiga? Não. A RTU é um procedimento endoscópico pela uretra e não requer preparo de cólon, diferente da cistectomia radical.
- Posso tomar água antes da RTU de bexiga? Sim, líquidos claros até 2 horas antes do horário marcado — inclusive bebidas carboidratadas no protocolo ERAS, salvo em diabéticos descompensados.
- Quanto tempo leva a cirurgia de RTU de bexiga? Entre 30 e 90 minutos, dependendo do número, tamanho e localização dos tumores.
- Quando posso voltar ao trabalho após a RTU? Em atividades leves, 7 a 10 dias. Atividades físicas intensas e relações sexuais, de 14 a 21 dias, conforme orientação do urologista.
Conclusão
O sucesso da RTU de bexiga começa antes do centro cirúrgico. Exames bem conduzidos, jejum correto, manejo criterioso das medicações e comunicação próxima entre urologista, cardiologista e anestesista são os pilares que reduzem complicações, otimizam a qualidade da ressecção e melhoram o prognóstico oncológico. Um pré-operatório bem feito também permite que o cirurgião realize uma ressecção completa, com amostra de músculo detrusor, o que é decisivo para estadiar corretamente o tumor e escolher o melhor tratamento complementar.
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Se você recebeu a indicação de RTU de bexiga, está com dúvidas sobre exames, medicações ou jejum, ou deseja uma segunda opinião qualificada antes da cirurgia, eu posso ajudar.
Analiso pessoalmente seus exames, reviso seu plano cirúrgico, oriento o preparo e o acompanho do diagnóstico ao seguimento oncológico de longo prazo.
Sobre o autor — Dr. Alexandre Sato
Dr. Alexandre Sato é urologista com dedicação ao tratamento cirúrgico do câncer de bexiga, da hiperplasia prostática benigna e do câncer de próstata. Realiza rotineiramente procedimentos de RTU de bexiga (RTUB/TURBT), cistectomia radical com derivações urinárias, HoLEP (enucleação prostática com laser de hólmio) e cirurgias urológicas minimamente invasivas.
Titulado pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), segue as recomendações das diretrizes da AUA (American Urological Association), EAU (European Association of Urology) e dos protocolos ERAS (Enhanced Recovery After Surgery) em todos os seus pacientes — com foco em preparo pré-operatório individualizado, cirurgia oncológica precisa e seguimento estruturado.
Acredita que uma cirurgia de qualidade começa semanas antes do centro cirúrgico: no cuidado minucioso com exames, medicações, comorbidades e comunicação com o paciente.
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Dr. Alexandre Sato
Médico Urologista em São Paulo - SP
A Begin Clinic é uma clínica especializada em tratamentos de reprodução assistida na cidade de São Paulo - SP. Também atendemos pacientes de outras cidades e estados em todo Brasil e exterior, que buscam por tratamentos de excelência, com médicos especialistas em congelamento de óvulos.
Saiba mais sobre Dr. Alexandre Sato.
CRM-SP: 146.210 - RQE: 61330
Curriculum Lattes: http://lattes.cnpq.br/6551764447584301