Efeitos colaterais do HIFU: continência urinária e função erétil
Por Dr. Alexandre Sato — Urologista | CRM-SP 146.210 · RQE 61330
Conteúdo educativo, não substitui a consulta médica.
O maior atrativo do HIFU (terapia focal por ultrassom) no câncer de próstata é justamente o seu perfil de efeitos colaterais: por tratar apenas a área do tumor e poupar o tecido saudável ao redor, ele tende a preservar melhor a continência urinária e a função sexual do que os tratamentos que atuam sobre toda a próstata. "Preservar melhor", porém, não é "risco zero". Este artigo explica, com honestidade e números, quais são os efeitos colaterais do HIFU, quão frequentes são, quanto tempo costumam durar e o que se pode fazer a respeito.
Antes dos números: uma observação importante
Quase toda a boa evidência de preservação funcional vem do HIFU focal (ou hemiablação) — tratar só o lado/foco doente. O HIFU de próstata inteira tem resultados funcionais bem piores, mais parecidos com os de outros tratamentos radicais. Como o valor da terapia focal está exatamente em poupar função, os dados a seguir se referem sobretudo ao HIFU focal, e o seu resultado individual depende do tamanho e da localização da lesão, da sua função antes do tratamento e da experiência do serviço.
Continência urinária: o ponto forte do HIFU
Aqui está a melhor notícia. Após o HIFU focal, a continência urinária costuma ser muito bem preservada: os estudos mostram que cerca de 9 em cada 10 homens permanecem sem uso de fralda/absorvente em 1 ano, e a incontinência nova (de novo) aparece tipicamente em menos de 10% dos casos — quase sempre de forma leve e temporária. A incontinência grave e permanente é rara na terapia focal.
Isso contrasta com o HIFU de glândula inteira, em que as taxas de incontinência são maiores, e é um dos principais motivos pelos quais o candidato bem selecionado escolhe o caminho focal. Nas primeiras semanas, é comum sentir urgência urinária, ardência ou pequenos escapes — sintomas que costumam melhorar à medida que a próstata cicatriza.
Função erétil: o efeito colateral mais relevante
Se a continência é o ponto forte, a função sexual é onde estão os riscos mais significativos — ainda que menores do que na cirurgia ou na radioterapia. Após o HIFU focal, os dados mostram que a maioria dos homens mantém ou recupera ereções satisfatórias em cerca de 1 ano (aproximadamente 3 em cada 4), mas uma parcela — em torno de 20% a 30% — desenvolve algum grau de disfunção erétil nova.
Por que isso acontece? Os nervos responsáveis pela ereção correm rente à cápsula da próstata. Quando a lesão a ser tratada está próxima desses nervos, o calor do ultrassom pode afetá-los. Por isso o risco é muito individual: depende da localização do tumor, da sua função sexual antes do tratamento, da idade e de fatores como diabetes e hipertensão. A boa notícia é que a disfunção costuma ser parcial e muitas vezes temporária, e responde bem à reabilitação sexual — medicações (inibidores de PDE5, como sildenafila e tadalafila), e, quando necessário, outros recursos. Vale saber ainda que a ejaculação pode reduzir de volume ou mudar após o procedimento.
Os outros efeitos colaterais (menos falados, mas importantes)
Nos primeiros dias após o HIFU, é comum haver sonda vesical temporária e uma fase de retenção urinária enquanto o inchaço da próstata diminui — geralmente resolvida em poucos dias a semanas. Podem ocorrer ardência ao urinar, urgência, sangue na urina (hematúria) e sangue no sêmen (hematospermia), sintomas em regra benignos e passageiros. Infecção urinária pode acontecer e é tratada com antibiótico. Com menor frequência, surge estreitamento da uretra (estenose), que pode exigir um procedimento simples. E, raramente — em torno de 1% a 2% —, pode ocorrer uma fístula entre o reto e a uretra, complicação séria que requer tratamento específico; é justamente por complicações assim, ainda que incomuns, que a experiência da equipe importa.
Resumo dos efeitos colaterais (HIFU focal)
| Efeito colateral | Frequência aproximada | Curso típico |
|---|---|---|
| Incontinência urinária nova | Menos de 10% (grave é rara) | Geralmente leve e temporária |
| Continência preservada (sem fralda) | ~90% em 1 ano | — |
| Disfunção erétil nova | ~20–30% | Muitas vezes parcial/temporária; responde a reabilitação |
| Ereções preservadas/recuperadas | ~75% em 1 ano | Melhora ao longo dos meses |
| Alteração da ejaculação | Comum | Persistente em parte dos casos |
| Retenção urinária / sonda | Fase inicial | Dias a poucas semanas |
| Sintomas urinários (ardência, urgência, hematúria) | Comuns no início | Melhoram em semanas |
| Infecção urinária | Ocasional | Tratada com antibiótico |
| Estenose de uretra | Incomum | Procedimento simples se necessário |
| Fístula reto-uretral | Rara (~1–2%) | Requer tratamento específico |
Faixas baseadas na literatura de HIFU focal; os números variam entre estudos e, principalmente, entre pacientes. Seu risco individual deve ser estimado na consulta.
Como reduzir os riscos
Boa parte do resultado é decidida antes do tratamento. Uma seleção criteriosa (lesão bem localizada, confirmada por ressonância e biópsia), o planejamento da ablação respeitando os nervos quando possível, e a reabilitação precoce (do assoalho pélvico e sexual) fazem diferença real. Conversar abertamente sobre suas prioridades — o quanto você valoriza preservar a função sexual, por exemplo — ajuda o urologista a planejar o tratamento e a manejar as expectativas. Efeito colateral que se antecipa e se acompanha é muito mais fácil de resolver.
Perguntas frequentes
O HIFU causa impotência? Não na maioria dos casos, mas o risco existe: cerca de 20% a 30% dos homens desenvolvem algum grau de disfunção erétil nova após o HIFU focal, geralmente parcial e muitas vezes temporária. O risco depende da localização do tumor e da sua função sexual prévia.
Vou usar fralda depois do HIFU? Muito provavelmente não. A continência é o ponto forte da terapia focal: cerca de 9 em cada 10 homens ficam sem uso de fralda em 1 ano, e a incontinência grave é rara.
Os efeitos colaterais são permanentes? A maioria é temporária — sonda, ardência, urgência e escapes leves tendem a melhorar em semanas. A disfunção erétil pode ser mais duradoura, mas frequentemente melhora com o tempo e com reabilitação.
O HIFU afeta a ejaculação? Pode afetar: é comum haver redução do volume ou mudança na ejaculação após o procedimento.
Os efeitos do HIFU são menores que os da cirurgia? No candidato bem selecionado, o HIFU focal tende a preservar melhor continência e ereção do que a prostatectomia ou o HIFU de próstata inteira. Em troca, tem menos evidência de longo prazo e maior chance de retratamento — por isso a escolha deve ser individualizada.
Referências
- High-Intensity Focused Ultrasound Ablation in Prostate Cancer: A Systematic Review. 2024 (revisão sistemática de desfechos oncológicos e funcionais).
- Shah TT, Reddy D, Peters M, et al. Focal therapy outcomes (continência e potência) em câncer de próstata de risco baixo/intermediário. Eur Urol / Prostate Cancer Prostatic Dis, edições recentes.
- Stabile A, Orczyk C, et al. An Updated Systematic Review on Focal Therapy in Localized Prostate Cancer: What Has Changed over the Past 5 Years? Eur Urol. 2022.
- Reddy D, Peters M, Shah TT, et al. Cancer Control Outcomes Following Focal Therapy Using HIFU in 1379 Men: a 15-year Multi-institute Experience. Eur Urol. 2022;81(4):407–413.
- EAU–EANM–ESTRO–ESUR–ISUP–SIOG. Guidelines on Prostate Cancer — seção de terapia focal, edição vigente (2024).
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Orientações sobre tratamento do câncer de próstata.
Observação: percentuais refletem a literatura de terapia focal (HIFU focal/hemiablação) e podem variar conforme a série, a técnica e o paciente. O HIFU de glândula inteira tem taxas menos favoráveis.
Sobre o Dr. Alexandre Sato
O Dr. Alexandre Sato é médico urologista em São Paulo, dedicado à urologia oncológica e à cirurgia robótica da próstata. Formou-se e concluiu a residência em Urologia na Santa Casa de São Paulo e aprofundou sua formação em dois fellowships na Duke University (EUA) — referência mundial em câncer urológico — em urologia oncológica e cirurgia robótica, com treinamento adicional em cálculo renal na Faculdade de Medicina do ABC. É cirurgião robótico certificado e membro de sociedades de referência da especialidade.
No cuidado do câncer de próstata, dá atenção especial ao equilíbrio entre controle do câncer e qualidade de vida — incluindo a preservação da continência e da função sexual —, apresentando ao paciente todas as opções (cirurgia, radioterapia e terapias focais como o HIFU) com honestidade e planejamento individualizado. Atende em consultório na Vila Clementino e opera nos principais hospitais de São Paulo.
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