Glossário da próstata: PSA, HPB, escore de Gleason, PI-RADS e outros termos
Por Dr. Alexandre Sato — Urologista | CRM-SP 146.210 · RQE 61330
Conteúdo educativo, não substitui a consulta médica.
Recebeu um laudo cheio de siglas e números e não entendeu quase nada? É normal. Este glossário explica, em linguagem simples, os termos mais comuns nos exames e nas consultas sobre a próstata, tanto na próstata aumentada quanto no câncer de próstata. Use a busca do navegador (Ctrl+F ou “Buscar na página”) para ir direto ao termo que você procura.
Exames e marcadores
PSA (antígeno prostático específico). Proteína produzida pela próstata e medida no sangue. Pode subir por vários motivos: próstata aumentada, inflamação (prostatite), relação sexual ou exercício recentes e câncer. Por isso, um PSA alterado não significa câncer. Ele indica que vale investigar melhor. O valor considerado normal varia com a idade e o tamanho da próstata.
PSA livre e relação PSA livre/total. Parte do PSA circula “livre” no sangue. Quando a proporção de PSA livre é baixa, a suspeita de câncer aumenta; quando é alta, favorece causas benignas. Ajuda a decidir quem precisa de mais exames.
Densidade do PSA. É o PSA dividido pelo volume da próstata. Uma próstata grande produz mais PSA naturalmente. Por isso, a densidade ajuda a separar o PSA “esperado para o tamanho” do PSA suspeito. Valores acima de cerca de 0,15 costumam merecer mais atenção.
Toque retal. Exame físico em que o médico avalia tamanho, consistência e nódulos na próstata. É rápido e complementa o PSA, porque alguns tumores aparecem no toque mesmo com PSA normal.
Ultrassom de próstata. Mede o volume da próstata, um dado essencial para escolher o tratamento da próstata aumentada. Também é usado para guiar a biópsia.
Ressonância magnética multiparamétrica (mpMRI). Exame de imagem detalhado da próstata. Mostra áreas suspeitas de câncer e ajuda a decidir se a biópsia é necessária e onde fazê-la. Hoje é peça central do diagnóstico e da seleção para terapia focal.
PI-RADS. Escala de 1 a 5 usada no laudo da ressonância para indicar a probabilidade de um câncer clinicamente significativo em cada área. PI-RADS 1 e 2 indicam baixa probabilidade; 3 é duvidoso; 4 e 5 indicam alta probabilidade e, em geral, justificam biópsia. PI-RADS não é diagnóstico: só a biópsia confirma.
Biópsia de próstata. Retirada de pequenos fragmentos da próstata para análise ao microscópio. É o único exame que confirma o câncer.
Biópsia por fusão. Biópsia que sobrepõe as imagens da ressonância ao ultrassom em tempo real, para atingir com precisão a área suspeita.
Via transperineal. Forma de fazer a biópsia pela pele do períneo, e não pelo reto. Reduz bastante o risco de infecção e vem se tornando o padrão.
PSMA-PET. Exame de imagem moderno que localiza células de câncer de próstata pelo corpo. É usado principalmente para estadiar casos de maior risco e para investigar a subida do PSA após o tratamento.
Próstata aumentada (HPB)
HPB (hiperplasia benigna da próstata). Crescimento benigno da próstata, muito comum com a idade. Não é câncer e não vira câncer. Pode apertar a uretra e causar jato fraco, urgência e idas frequentes ao banheiro à noite. Para escolher o tratamento, veja a árvore de decisão da próstata aumentada.
IPSS (Escore Internacional de Sintomas Prostáticos). Questionário de 0 a 35 pontos que mede a intensidade dos sintomas urinários: 0 a 7 leve, 8 a 19 moderado e 20 a 35 grave. Ajuda a decidir se e como tratar.
Urofluxometria e Qmax. Exame em que você urina num aparelho que mede a força do jato. O Qmax é o fluxo máximo. Valores baixos (em geral abaixo de 10 mL/s) sugerem obstrução.
Resíduo pós-miccional. Quantidade de urina que sobra na bexiga depois de urinar, medida por ultrassom. Resíduo alto indica esvaziamento incompleto.
Lobo mediano. Porção da próstata que cresce para dentro da bexiga, como uma “rolha”. Influencia a escolha do tratamento, porque algumas técnicas o tratam melhor que outras, como explicamos em Rezum x UroLift.
Retenção urinária. Incapacidade de urinar, que exige sonda. É uma das situações que costumam indicar cirurgia.
Alfabloqueador. Classe de remédio (ex.: tansulosina, doxazosina) que relaxa a musculatura da próstata e melhora o jato em dias. Pode alterar a ejaculação em alguns homens.
Inibidor da 5-alfarredutase. Remédio (ex.: finasterida, dutasterida) que encolhe a próstata ao longo de meses. Também reduz o PSA pela metade, o que o médico precisa considerar na interpretação do exame.
RTU (ressecção transuretral da próstata). Cirurgia feita pela uretra, sem cortes, que “raspa” o tecido que obstrui. Padrão clássico para próstatas pequenas a médias.
HoLEP. Cirurgia a laser que retira o adenoma inteiro pela uretra e trata próstatas de qualquer tamanho. Veja HoLEP x RTU.
Rezum. Tratamento com vapor d’água que encolhe a próstata aos poucos e costuma preservar a ejaculação. Veja quem é o candidato ideal ao Rezum.
UroLift. Pequenos implantes que afastam os lobos da próstata e abrem o canal da urina, também com preservação da ejaculação na maioria dos casos.
Ejaculação retrógrada. Quando o sêmen vai para a bexiga em vez de sair pela uretra (“orgasmo seco”). É comum após RTU e HoLEP e não afeta o prazer. Veja HoLEP e ejaculação retrógrada.
Câncer de próstata: diagnóstico e risco
Escore de Gleason. Nota que o patologista dá ao câncer conforme o aspecto das células ao microscópio. Soma dois padrões (de 3 a 5) e vai de 6 a 10: quanto maior, mais agressivo. Gleason 6 é o menos agressivo usado hoje. 3+4 e 4+3 somam 7, mas não são iguais: no 4+3 predomina o padrão mais agressivo.
Grupo ISUP (grupo de grau). Forma mais simples de expressar o Gleason, de 1 a 5: ISUP 1 = 3+3; ISUP 2 = 3+4; ISUP 3 = 4+3; ISUP 4 = Gleason 8; ISUP 5 = Gleason 9 ou 10.
Estádio (T). Descreve a extensão local do tumor. T1: não é palpável, achado por PSA ou biópsia; T2: confinado à próstata; T3: ultrapassa a cápsula (T3b quando atinge as vesículas seminais); T4: invade órgãos vizinhos. Os estádios N e M indicam linfonodos e metástases.
Grupo de risco. Classificação que combina PSA, ISUP e estádio em baixo, intermediário (favorável ou desfavorável) e alto risco. É o ponto de partida para escolher o tratamento, como explicamos em câncer de próstata localizado: cirurgia, radioterapia ou terapia focal?.
Câncer clinicamente significativo. Câncer com potencial real de crescer e causar dano (em geral ISUP 2 ou maior). Diferencia os tumores que precisam de tratamento dos que podem ser só acompanhados.
Câncer de próstata: tratamento e seguimento
Vigilância ativa. Acompanhamento estruturado de cânceres de baixo risco, com PSA, ressonância e biópsias periódicas, tratando só se houver progressão. Não é “não fazer nada”.
Prostatectomia radical. Cirurgia que remove toda a próstata e as vesículas seminais. Pode ser aberta, laparoscópica ou robótica; veja as diferenças entre as três vias.
Preservação de nervos (nerve-sparing). Técnica cirúrgica que poupa os feixes nervosos da ereção ao lado da próstata, quando o tumor permite. Veja preservação de nervos e função erétil.
Terapia focal / HIFU. Tratamento que destrói apenas a área do tumor com ultrassom focalizado, poupando o restante da próstata. Indicado para casos selecionados; veja se a terapia focal é para todo mundo.
Hormonioterapia (bloqueio androgênico). Tratamento que reduz a testosterona, que estimula o câncer de próstata. É usado com a radioterapia em casos de risco intermediário desfavorável e alto, e na doença avançada.
Margem cirúrgica. Indica se há células tumorais na borda da próstata retirada. Margem positiva não significa que o câncer voltou, mas pede acompanhamento mais atento.
PSA indetectável. Após a retirada da próstata, o PSA deve ficar praticamente zero (em geral abaixo de 0,1 ng/mL). É o principal sinal de sucesso da cirurgia.
Nadir do PSA. Menor valor que o PSA atinge após um tratamento. É a referência para o acompanhamento, especialmente após radioterapia e HIFU.
Recidiva bioquímica. Quando o PSA volta a subir após o tratamento. Depois da prostatectomia, define-se em geral por PSA de 0,2 ng/mL ou mais, confirmado. Não é o mesmo que metástase e tem tratamento.
Radioterapia de resgate. Radioterapia feita quando o PSA volta a subir depois da cirurgia. Funciona melhor quando iniciada cedo, com o PSA ainda baixo.
Perguntas frequentes
PSA alto é câncer? Não necessariamente. O PSA também sobe com a próstata aumentada, com inflamação e após relação sexual ou exercício. Ele indica a necessidade de investigar, geralmente com ressonância.
PI-RADS 4 quer dizer que tenho câncer? Não. Indica alta probabilidade de câncer significativo naquela área, e por isso a biópsia costuma ser recomendada. Só a biópsia confirma.
Qual a diferença entre Gleason e ISUP? São duas formas de expressar a mesma informação. O ISUP vai de 1 a 5 e é mais fácil de entender: ISUP 1 corresponde ao Gleason 6, e ISUP 5 ao Gleason 9 ou 10.
HPB pode virar câncer? Não. A hiperplasia prostática benigna não se transforma em câncer, mas as duas condições podem existir ao mesmo tempo. Por isso o acompanhamento com PSA continua importante.
O que é Gleason 3+4? É um câncer ISUP 2, de risco intermediário favorável na maioria dos casos. Predomina o padrão menos agressivo (3), com uma parte do padrão 4.
Referências
- Epstein JI, Egevad L, Amin MB, et al. The 2014 ISUP Consensus Conference on Gleason Grading of Prostatic Carcinoma. Am J Surg Pathol. 2016;40:244–252.
- Turkbey B, Rosenkrantz AB, Haider MA, et al. Prostate Imaging Reporting and Data System Version 2.1 (PI-RADS v2.1). Eur Urol. 2019;76:340–351.
- EAU–EANM–ESTRO–ESUR–ISUP–SIOG. Guidelines on Prostate Cancer, edição vigente (2026).
- EAU. Guidelines on Management of Non-neurogenic Male LUTS, incl. BPO, edição vigente (2026).
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).
Sobre o Dr. Alexandre Sato
O Dr. Alexandre Sato é médico urologista em São Paulo, dedicado à urologia oncológica, à cirurgia robótica da próstata e ao tratamento da próstata aumentada. Fez graduação e residência em Urologia na Santa Casa de São Paulo e aprofundou sua formação em dois fellowships na Duke University (EUA), referência mundial em câncer urológico, em urologia oncológica e cirurgia robótica, com treinamento adicional em cálculo renal na Faculdade de Medicina do ABC. É cirurgião robótico certificado e membro de sociedades de referência da especialidade.
Acredita que paciente informado decide melhor: em cada consulta, explica os exames, os termos do laudo e as opções de tratamento em linguagem clara. Atende em consultório na Vila Clementino e opera nos principais hospitais de São Paulo.
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